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Pelas águas do Pantanal, sem pisar em terra firme

O Pantanal está em plena mudança. E não se trata da alternância anual entre cheia e seca, tão característica daquele ecossistema. Percebe-se no ar um discurso de preservação do meio ambiente que vem alterando o perfil do turismo. Ainda não é possível dizer que a pesca predatória, muitas vezes disfarçada de inocente versão esportiva, é coisa do passado. Mas as empresas da região começam a investir em um outro tipo de roteiro, baseado na observação da natureza, com toques de educação ambiental.

É uma novidade e tanto para os turistas. Barcos-hotéis que até pouco tempo atrás passavam meses ociosos na piracema - a época de reprodução dos peixes, de outubro a março - começam a adaptar a infra-estrutura para viajantes que querem se aventurar pela maior área alagável do globo, mas não têm nenhum interesse nos anzóis.

Ângelo Maranhos, capitão dos Portos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, reivindica a paternidade da idéia. "Sugeri o turismo fluvial sem pesca aos donos de barcos no começo do ano passado", diz. A idéia é hospedar os viajantes na própria embarcação, com toda pompa e circunstância, como num cruzeiro. A vantagem evidente é chegar mais perto da vida selvagem, em áreas quase inexploradas do Rio Paraguai, onde é bem raro encontrar um ser humano pelo caminho.

Esse é um tipo de passeio muito mais interessante na cheia, que começa em dezembro e vai até a metade do ano seguinte, quando as águas inundam quilômetros e quilômetros de fazendas e pastagens. Traduzindo: quando o Pantanal é realmente um pântano, um lago gigantesco. Pelo Rio Paraguai, o barco-hotel distancia-se de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, onde a viagem começa. Os passeios diários são feitos em canoas com motores e cadeiras giratórias, as voadeiras. Nelas, ganha-se agilidade para seguir pelos corixos, braços de rio ocultos pela vegetação flutuante.

A paisagem muda, surpreende e encanta todo o tempo. Mas sempre tem como pano de fundo o imenso espelho d`água pontuado por aguapés floridos e minibosques de piuval, árvores retorcidas do cerrado. Preciosidades surgem aos montes: um ponto de águas muito transparentes para nadar com máscara e snorkel (onde alguns conseguem até ver piranhas), uma lagoa onde brota um jardim de vitórias-régias, emocionante. Tudo imprevisível até para quem conhece bem a região. O Pantanal muda ao sabor das águas. Amanhã, aquele ponto de mergulho pode se tornar um poço completamente turvo.

Bem cedo e no fim da tarde, jacarés e pássaros dão o ar da graça. Mas onça é um sonho distante. Segundo os guias, é difícil flagrar uma delas mesmo na seca. Não porque sejam poucas, mas porque se escondem muito bem.

Os olhos terão de se acostumar a muitas outras coisas que não se vêem todo dia, como as casas ribeirinhas alagadas que aparecem aqui e ali. Estão cheias de sinais de que não foram definitivamente abandonadas: um vaso de plantas frescas, um cachorro que toma conta do pedaço. Os moradores estão passando uma temporada fora, explica o guia. Provavelmente, pediram abrigo a um parente em algum ponto seco daquela imensidão. Mas vão voltar quando as águas baixarem. O ritual de limpar, consertar estragos e retomar a rotina à beira do Rio Paraguai se repete ano a ano.

PRIMEIROS PASSOS

Por enquanto, há um único roteiro fluvial regular sem foco na pesca, lançado pela agência Canaã, de Corumbá, e pela operadora paulistana Climb. O pacote é de três noites com pensão completa e hospedagem no barco Antares, que tem capacidade para 18 pessoas em duas cabines duplas, duas triplas e duas quádruplas. Estão previstas oito saídas até o meio do ano que vem - a primeira será em 2 de julho.

O capitão dos portos Ângelo Maranhos informa que outros barcos-hotéis de Corumbá andam fazendo tours de ecoturismo, mas ainda sem regularidade. São passeios contratados por grupos fechados - há até roteiros de evangelização encomendados por turmas de fiéis.

Fonte: O Estado de São Paulo


 
 

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